quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A DESNUTRIÇÃO E O DESENVOLVIMENTO PSICOMOTOR E COGNITIVO NA INFÂNCIA

A DESNUTRIÇÃO E O DESENVOLVIMENTO PSICOMOTOR

E COGNITIVO NA INFÂNCIA

Sara Ciotta Pereira[1]

RESUMO: Para ter um corpo e a mente sempre saudáveis é importante ter uma alimentação rica e nutritiva e praticar atividades físicas. A desnutrição seria a falta ou o consumo insuficiente de nutrientes pelo organismo humano. O presente artigo teve como objetivo pesquisar a importância dos alimentos e da prática esportiva na infância, demonstrando que a desnutrição prejudica o desenvolvimento físico e a aprendizagem das crianças na escola. A metodologia da pesquisa foi através da exposição e análise dos dados coletados junto aos estudantes do sexto ano da Rede Pública Estadual de ensino do município de Vacaria/RS, mostrando a realidade vivida pela grande maioria dos estudantes, no que concerne a prática de atividade física e uma boa alimentação, como fatores determinantes para auxiliar no crescimento e fortalecimento físico e no processo de aprendizagem e desenvolvimento cognitivo. A má alimentação é um problema de ordem social e econômica que interfere diretamente no bem estar dos indivíduos; principalmente, nas crianças em fase de desenvolvimento físico e mental. A desnutrição prejudica o crescimento, a aprendizagem e afeta de maneira negativa no rendimento escolar infantil.

PALAVRAS-CHAVE: Alimentação; Desenvolvimento e Aprendizagem; Desnutrição Infantil.

1 INTRODUÇÃO

O organismo humano tem necessidade, para desenvolver-se e para conservar-se em boa saúde, deve receber continuamente certas substâncias essenciais; grande parte dessas substâncias ou nutrientes são encontrados nos alimentos. Os alimentos são divididos e classificados de acordo com o seu valor nutricional; e, é este valor nutricional que determina a quantidade e o número de vezes que vão fazer parte da dieta.

Para uma vida saudável a alimentação equilibrada e a prática de atividade física são essências para o desenvolvimento psicomotor e cognitivo de maneira harmônica. Todos os alimentos são importantes para o funcionamento do organismo humano, e a falta de algum nutriente acarreta em problemas na saúde.

A desnutrição é a falta de uma dieta equilibrada e satisfatória para o organismo, é a ingestão insuficiente ou nula de um ou mais dos nutrientes encontrados nos alimentos. A desnutrição é considerada como um problema socioeconômico, pois demonstra a fragilidade e a pobreza de um povo e o descaso do governo.

A Educação de um modo geral sofre diariamente a influência do fator externo, isto é, tudo o que acontece fora da escola de alguma maneira afeta o ambiente escolar; portanto, a desnutrição é um problema que atinge a educação, e, é vivenciado diariamente nos bancos escolares. A má alimentação na infância acarreta em problemas no desenvolvimento psicomotor e cognitivo das crianças.

O problema a ser analisado com a pesquisa é “Como a desnutrição pode interferir no desempenho físico e na aprendizagem dos alunos do sexto ano do Ensino Fundamental da Rede Pública de ensino?”.

O presente artigo teve como objetivo pesquisar a importância dos alimentos e da prática esportiva na infância, demonstrando que a desnutrição prejudica o desenvolvimento físico e a aprendizagem das crianças na escola.

A metodologia da pesquisa foi através da exposição e análise dos dados coletados junto aos estudantes do sexto ano da Rede Pública Estadual de ensino do município de Vacaria/RS, mostrando a realidade vivida pela grande maioria dos estudantes, no que concerne a prática de atividade física e uma boa alimentação, como fatores determinantes para auxiliar no crescimento e fortalecimento físico e no processo de aprendizagem e desenvolvimento cognitivo. A desnutrição afeta o aprimoramento e desenvolvimento psicomotor e cognitivo na infância.

2 REVISÃO BIBLIOGRAFICA

2.1 CONCEITO DE NUTRIÇÃO E DESNUTRIÇÃO

A expressão Nutrição no dicionário de língua portuguesa para Ferreira (2008, p. 355), significa: “Conjunto dos processos que vão desde a ingestão dos alimentos até a sua assimilação pelas células”. Para que ocorra, no ser humano, um desenvolvimento psicomotor e cognitivo harmônicos é necessário que certas condições estejam presentes como: uma alimentação equilibrada e a prática de atividades físicas regulares.

[...] A nutrição apropriada constitui alicerce para o desempenho físico; proporciona o combustível para o trabalho biológico e as substâncias químicas para extrair e utilizar a energia potencial existente dentro desse combustível. Os nutrientes do alimento proporcionam também os elementos essenciais para reparar as células existentes e para sintetizar novos tecidos. (MCARDLE, 2003, p. 03)

A falta destas condições citadas por Mcardle compromete o crescimento físico e a aprendizagem, um dos fatores para que haja esta deficiência no desenvolvimento humano é a desnutrição. Para Ferreira (2008, p. 190) a “Desnutrição seria o ato de nutrir-se de forma insuficiente ou de maneira nula, ou seja, ausência da ingestão de alimentos”.

A desnutrição é considerada uma doença causada por uma dieta inapropriada, ou pela má-absorção de nutrientes pelo organismo humano. A desnutrição é um problema socioeconômico, que atinge principalmente países subdesenvolvidos e, em maior escala crianças. A falta de uma alimentação correta e saudável prejudica o desenvolvimento físico e mental das crianças; trazendo deficiência na aprendizagem e no rendimento escolar

2.2 A IMPORTANCIA DA ALIMENTAÇÃO NO DESENVOLVIMENTO HUMANO

Os alimentos são todas as substâncias utilizadas pelos animais como fontes de matéria e energia para poderem realizar as suas funções vitais, incluindo o crescimento, movimento, reprodução, etc. Para o homem, a alimentação inclui ainda várias substâncias que não são necessárias para as funções biológicas, mas que fazem parte da cultura, como as bebidas com álcool, refrigerantes, compostos químicos psicotrópicos, os temperos e vários corantes e corantes e conservantes usados nos alimentos. (WIKIPEDIA, 2011)

Os alimentos são substâncias utilizadas pelo organismo para regenerar os seus próprios tecidos e obter a energia necessária para o cumprimento de todas as funções orgânicas. Com base nos estudos realizados por Wilmore e Costill (2001, p. 452 – 467) os elementos constitutivos dos alimentos são:

* Proteínas ou Protídeos – representam o principio nutritivo mais completo; Exercem função energética e plástica. As proteínas mais adequadas para exercerem a função plástica são as de origem animal, isto é, as encontradas na carne, ovos, peixes e no leite; são formadas por aminoácidos, elementos constitutivos da célula viva;

* Gorduras ou Lipídeos – subdividem-se em gorduras neutras (gorduras comuns, depositadas no tecido subcutâneo) que exercem função energética e os lipóides que desempenham função plástica, combinando-se com as proteínas;

* Carboidratos ou Hidratos de Carbono – são constituídos de glicose, galactose e frutose; Como as gorduras, exerce função energética: estão presentes nos farináceos e nas frutas;

* Vitaminas – são elementos constitutivos fundamentais porque influenciam de maneira decisiva em todas as funções vitais. A ausência prolongada de vitaminas dá origem a estados de avitaminoses;

* Sais Minerais – exercem no organismo função plástica, regulam a osmose sangüínea, asseguram o equilíbrio do ácido – básico, participam de reações bioquímicas nos tecidos. Os mais importantes são: cloro, sódio, potássio, ferro, cálcio e fósforo;

* Água - é o alimento mais importante para o homem. É através da água que a temperatura corpórea se mantém dentro dos níveis normais. Se a perda de água for maior que a sua reposição pode haver uma desidratação; cerca de dois terços, do peso corpóreo são constituídos de água, que é adquirida através de bebidas, de alimentos ricos em água e com o metabolismo das proteínas das gorduras e dos carboidratos.

Para compreender o valor nutricional dos alimentos utiliza-se a pirâmide alimentar. A pirâmide é construída a partir do agrupamento dos diferentes alimentos, conforme as características nutricionais e divide-se em porções. Através das porções é que se calcula o valor calórico de cada alimento. Os valores nutricionais dos alimentos consumidos devem levar em consideração as vitaminas e necessidades individuais de cada organismo, a idade, sexo, o peso, a altura e o exercício físico realizado.

Fonte: www.emedix.uol.com.br

Analisando a pirâmide alimentar a base é composta por alimentos ricos em carboidratos como: pães, massas, cereais e arroz. Este grupo compreende a maior parte e por isso, devem ser consumidos numa maior quantidade no decorrer do dia, pois são fontes de energia essenciais. Mas deve ser respeitado a quantidade ideal de consumo deste grupo para não trazer prejuízos ao corpo.

Na parte de cima da base encontram-se os alimentos reguladores que são ricas fontes de vitaminas, minerais e fibras e auxiliam na regulação de diversas reações do organismo; fazem parte deste grupo as frutas, verduras e legumes.

O terceiro nível da pirâmide é formado por dois grupos fundamentais como fontes de proteínas e minerais; assim temos: os alimentos de origem animal como leite e derivados, carne, frango e ovos; e o grupo alimentar dos feijões, ervilhas e nozes. Para Mcardle (2001, p. 8), “[...] o leite é sempre um alimento de grande interesse porque contém todos os principais elementos nutritivos, tanto que é satisfatório, em diversas espécies animais, para dar uma alimentação completa nos primeiros tempos de vida”.

E no ponto mais elevado da pirâmide estão os óleos, manteigas, margarinas, açúcares e doces; este grupo alimentar deve ser consumido com moderação, pois são calóricos e pode acarretar em problemas cardiovasculares, obesidade, diabetes entre outras doenças.

Retirar do alimento o máximo de seu teor nutritivo é tarefa que requer conhecimento e análise do que se esta ingerindo; cada grupo alimentar representa nutrientes e vitaminas que podem ser mais ou menos necessários dentro de um organismo. Segundo Wilmore e Costill (2001, p.461–464) o valor nutritivo dos alimentos é dividido em grupos, que são:

* Grupo do Leite – compreende o leite integral, o soro do leite e os queijos. Estes alimentos de origem animal são muito ricos em todos os princípios nutritivos (proteínas, gorduras, carboidratos, vitaminas e sais minerais);

* Grupo da Carne – compreende as carnes, o peixe e os ovos muito ricos em proteínas; estes alimentos contêm também quantidades suficientes de gorduras, azoto, ferro, vitamina B1 e B12;

* Grupo das Frutas e das Verduras – compreende alimentos de reduzido valor calórico, porém riquíssimo em vitaminas e sais minerais;

* Pão e Cereais – pobres em proteínas, fornecem muitas calorias e contêm as vitaminas A, C, B1, B2, cálcio, ferro, ácido fólico.

Para haver um equilíbrio na ingestão de alimentos é primordial saber que todos os grupos alimentares são importantes para o desenvolvimento e manutenção da saúde do indivíduo, utilizar a tabela alimentar é o primeiro passo para ter uma alimentação saudável e rica de nutrientes essenciais para o corpo humano.

2.3 A PRÁTICA DE ATIVIDADE FISICA NA INFÂNCIA

O corpo necessita de nutrientes que encontra através dos alimentos; mas a prática de atividade física é primordial para o bom desenvolvimento e manutenção da saúde humana. O exercício físico é “toda atividade planejada, estruturada e repetitiva que tem por objetivos a melhoria e a manutenção de um ou mais componentes da aptidão física" (CASPERSEN apud GUEDES; GUEDES, 1994, p.174). Os exercícios naturais são a marcha, os brinquedos, os esportes. A marcha, exercitada sob a forma de passeio, é o mais natural dos exercícios. Os brinquedos são os exercícios mais adaptados à crianças e aos adolescentes.

Já a Atividade Física é definida como “qualquer movimento corporal, produzido pelos músculos esqueléticos, que em gasto energético maior do que os níveis de repouso". (CASPERSEN; apud GUEDES; GUEDES, 1994, p. 176). A atividade física pode ser praticada com exercícios naturais ou com exercícios artificiais. A prática esportiva deve adaptar-se às possibilidades musculares e fisiológicas do indivíduo. Com isso, cada período da nossa vida corresponde a uma atividade muscular apropriada.

Na Infância, os músculos em via de desenvolvimento são inaptos às contrações enérgicas. Segundo Powers e Howley (2000, p. 417),

Embora a atividade física tenha demonstrado otimizar o crescimento infantil, persistem questões quanto à possibilidade de um super-treinamento causar lesões ao sistema músculo-esquelético. Em particular, existem evidências de que os ossos em crescimento das crianças são mais susceptíveis a certos tipos de lesão mecânica em razão da presença da cartilagem de crescimento.

As crianças possuem uma necessidade contínua de movimento: tal necessidade é absolutamente fisiológica. Nos organismos jovens são maiores os impulsos nervosos, que do sistema nervoso central chegam ao aparelho locomotor.

O brinquedo é uma necessidade absolutamente natural; uma criança que brinca é uma criança que está bem. Os brinquedos compreendem três tipos de movimento: a marcha, a corrida e o salto. Os esportes constituem, em certo sentido, os brinquedos dos adultos. Sendo que, ao exercício físico em si, os esportes acrescentam a ideia de competição, de luta pela vitória, de resultado mau para uns, e de resultado feliz para outros: este aspecto torna-se, assim, muitas vezes danoso.

Assim, os esportes mais saudáveis são aqueles que se pratica de uma forma prazerosa e não apenas visando à vitória. Todo esporte deve ser considerado como excelente, com a condição de que seja praticados com medida, inteligência e bom senso. O fato de que a maioria dos esportes é praticada ao ar livre, acrescenta valor a sua prática, pois há uma harmonia entre ambiente, corpo e mente. Além disso, a partir do esforço muscular que realiza, ele desenvolve a força, a destreza e a iniciativa.

Os esportes de conjuntos são positivos para o desenvolvimento de qualidades morais, solidariedade e trabalho em equipe; exigem aplicação, tempo, organização e dedicação na sua prática; pois somente a prática pode levar a harmonia de todos os jogadores em prol de um mesmo objetivo. Temos como exemplo de esporte em grupo: o futebol, vôlei, entre outros.

O tênis, a patinação, a natação, etc., são esportes que podem ser praticados sozinhos ou em grupo (revezamento, como a natação) é de forma igualitária aos outros exige empenho, dedicação e vontade de aperfeiçoar sempre, somente assim os resultados finais serão positivos.

Os exercícios físicos artificiais são aqueles que se praticam com a ginástica. A ginástica pode dividir-se em duas categorias: a ginástica fisiológica e a ginástica atlética. A ginástica fisiológica comporta exercícios tais que cada músculo trabalha proporcionalmente à sua importância; tende ela a reforçar, sobretudo, os músculos respiratórios da caixa toráxica, os músculos da parede abdominal e os do tronco que asseguram a posição vertical.

Entre os benefícios físicos, o trabalhar pode perceber aumento da circulação e oxigenação, melhora da flexibilidade, diminuição do sono durante as atividades, correção da postura, redução das tensões musculares, aumento do ânimo e melhora da agilidade, concentração e coordenação motora. (PICOLLI, 2009, p. [s.p.]).

Os movimentos desta ginástica são simples, fáceis, acessíveis a todos; o seu defeito é que se tornam pouco divertidos, de tal modo que as sessões deverão ter uma duração limitada.

A ginástica atlética, ao contrário consiste na execução de exercícios com aparelhos (barra, cavalo, trapézio, argolas) que exigem violentos esforços; não é, portanto, isenta de inconvenientes e deve ser cuidadosamente controlada. A ginástica atlética apresenta também a desvantagem de desenvolver só alguns grupos musculares, de acordo com o exercício praticado. É necessário, portanto, variar muitas vezes os exercícios. Este tipo de ginástica não é adaptável a todos; mas, para aqueles que a praticam é muito prazerosa. A prática de atividade física promove o desenvolvimento psicomotor e cognitivo dos indivíduos envolvidos.

2.4 DESNUTRIÇÃO X APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO INFANTIL

A desnutrição infantil configura-se em um dos maiores problemas mundiais de saúde pública. A vulnerabilidade socioeconômica e cultural pode favorecer o aparecimento de doenças. Neste sentido, evidencia-se a pobreza como um dos fatores mais importantes que levam à desnutrição, justamente por estar ligada as condições socioeconômicas e, consequentemente, à precariedade. De acordo com Gallahue e Ozmun (2005, p. 217), “[...] mesmo em países desenvolvidos, as deficiências no crescimento ocorrem, muitas vezes causadas pela pobreza ou falta de informação dos pais em relação à nutrição básica de seus filhos”.

As crianças que sofrem de má nutrição no período neonatal e na primeira infância, nunca estão completamente de acordo com as normas de crescimento para suas faixas etárias. Podemos dizer que a desnutrição é um fator que afeta principalmente o desenvolvimento físico e mental e como consequência interfere de maneira negativa no rendimento escolar da criança.

A desnutrição infantil é um dos problemas de saúde mais grave dos países em desenvolvimento. As crianças desnutridas sofrem com o retardo de crescimento existindo pouca esperança de que venha igualar-se às outras crianças de sua idade em relação ao desenvolvimento, principalmente nos domínios psicomotor e cognitivo. Isso acontece porque os processos da memória e da aprendizagem motora da criança estão associados às condições nutricionais da mesma.

As conseqüências da desnutrição para o organismo da criança são várias, desde o comprometimento do crescimento, onde a manutenção da carência alimentar leva à desaceleração do ganho de estatura na tentativa de economizar energia visando manter as funções vitais até a diminuição do peso, devido à perda de tecido subcutâneo e massa muscular. (ESCOBAR apud MONTEIRO et al, 2009, p. 2)

Sendo a nutrição fundamental para um bom desempenho físico e que os exercícios físicos exercem uma atuação global no organismo, principalmente ao nível metabólico, cardiovascular e psicológico pode-se estabelecer uma certa relação entre desnutrição e baixo desempenho físico.

Nas aulas de educação física escolar o aluno encontra atividades onde as habilidades cognitivas, motoras e sócio afetivas são desenvolvidas. O aluno aprende a respeitar o próprio corpo, melhora a confiança em si e nos outros, diminui a timidez, trabalha o equilíbrio emocional em situações desafiadoras dividindo com o grupo as tarefas e responsabilidades. Além disso, a liberação de hormônios durante os exercícios causa bem-estar e aumenta a autoestima.

As crianças de um modo geral, por estarem em atividade constante, necessitam uma ingestão maior de calorias/dia do que os adultos, pois seu metabolismo e trocas orgânicas, assim como nos jovens, são ativos. Para Kamel e Kamel (1998, p. 38), “[...] a falta de calorias exigidas pelo organismo pode desencadear um estado de carência protéica, vitamínica ou de sais minerais e, sobretudo, a um descontrole energético positivos como a magreza”.

Sabe-se que a fome é a necessidade básica de alimento que, quando não satisfeita, diminui a disponibilidade de qualquer ser humano para as atividades cotidianas e também para as atividades intelectuais. Porém, uma vez satisfeita à necessidade de alimentação, cessam todos os seus efeitos negativos, sem quaisquer sequelas. A desnutrição, por sua vez, ocorre quando a fome se mantém em intensidade e tempo tão prolongados, que passam a interferir no suprimento energético do organismo.

A desnutrição afeta o ser humano de um modo geral, principalmente no aspecto cognitivo e motor, visíveis no desempenho das atividades físicas, pois para o aluno poder realizar determinada tarefa necessita, anteriormente, compreendê-la. De acordo com as fases do desenvolvimento cognitivo identificadas por Piaget (apud WIKIPEDIA, 2011), a criança com idade entre 7 a 11 anos encontra-se na fase das operações concretas.

O conceito de reversibilidade, de Piaget (WIKIPEDIA, 2011), se refere à capacidade de perceber mentalmente qualquer alteração da forma, ordem, posição, número e reverter à sua posição original é estabelecido nesta fase. O nível de raciocínio operacional concreto pressupõe que a experimentação mental depende da percepção por isso nesta fase as percepções são mais precisas e a criança aplica a interpretação dessas percepções ambientais sabiamente. Conforme Gallahue e Ozmun (2005, p. 49) “ela examina a partes para obter conhecimento do todo e estabelece meios de classificação para organizar as partes em um sistema hierárquico”. Pode-se citar os jogos de memória, quebra cabeça e xadrez, dentre outros, como atividades que exigem capacidade de reversibilidade.

Do ponto de vista motor, na fase de movimentos especializados, as habilidades estabilizadoras, locomotoras e manipulativas fundamentais são progressivamente refinadas, combinadas e elaboradas para o uso em situações crescentemente exigentes. O aparecimento e a extensão do desenvolvimento de habilidades nesta fase dependem de muitos fatores da tarefa (exercícios), individuais (aluno) e ambientais.

O tempo de reação e a velocidade do movimento, a coordenação, o tipo de corpo, a altura e o peso, os hábitos, a pressão do grupo social a que se pertence e a estrutura emocional são alguns desses fatores. Assim, é necessário que se desenvolva um ambiente saudável, pois a criança que sofre com a carência afetiva (característica do desnutrido) possui carência de estímulos, fazendo com que seu comportamento motor não amadureça e não se concretize. “Dessa forma, mesmo as crianças com uma dieta insuficiente, podem praticar exercício físico moderado, pois o mesmo permite um melhor aproveitamento dos nutrientes da dieta” (NÓBREGA, 1986, p. 398).

Tendo em vista os efeitos deletérios na aprendizagem e nas funções motoras causados pela desnutrição, as atividades oferecidas na Educação Física Escolar, exceto em caso de níveis excessivos, devem ser entendidas como uma alternativa favorável e de efeito positivo sobre o crescimento.

3 METODOLOGIA

Com a finalidade de observar como a desnutrição pode interferir no desenvolvimento psicomotor e cognitivo infantil, foi realizado uma coleta de dados através de um questionário (em anexo) respondido pelos entrevistados, tendo como público alvo os alunos da sexta série da rede pública estadual de ensino do município de Vacaria/RS. A coleta de dados tem por finalidade questionar e explorar como os estudantes se alimentam, e a relação existente entre a má nutrição e o desempenho escolar.

Num primeiro momento todos os alunos foram pesados e medidos para se fazer o calculo do Índice de Massa Corporal (IMC). Foi realizada uma entrevista semi-estruturada, que segundo Negrine (1983) possuem questões concretas previamente definidas e ao mesmo tempo permite que se realizem explorações não previstas aprofundando dessa forma melhor o tema, com o intuito de analisar o perfil dos estudantes do sexto ano da rede pública estadual, no que tange a alimentação.

A observação em sala de aula dos alunos entrevistados, para verificar a relação entre a alimentação x aprendizagem e o desenvolvimento cognitivo e psicomotor dos indivíduos. A pesquisa é de caráter qualitativo, tendo como instrumento de coleta de dados, entrevistas compostas por questões previamente estipuladas (em anexo), a qual tem por finalidade servir de base para o estudo realizado.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

O estudo que segue visa apresentar os dados coletados junto aos professores no que tange a desnutrição e o desenvolvimento psicomotor e cognitivo na infância. Num primeiro momento houve a medição e pesagem dos estudantes do sexto ano participantes da pesquisa não determinaremos o IMC (Índice de Massa Corporal) porque para alguns pesquisadores desta área nas fases de infância e adolescência é necessário um estudo mais aprofundado para determinar o IMC deve-se levar em consideração a altura, o peso, o sexo e a idade.

[...] As crianças naturalmente começam a vida com um alto índice de gordura corpórea, mas vão ficando mais magras conforme envelhecem. Além disso, também há diferenças entre a composição corporal de meninos e meninas. E foi para poder levar todas essas diferenças em consideração que os cientistas criaram um IMC especialmente para as crianças, chamado de IMC por idade. (...) O IMC por idade utiliza a altura, peso e idade de uma criança para determinar quanta gordura corporal ele ou ela tem e compara os resultados com os de outras crianças da mesma idade e gênero. Ele pode ajudar a prever se as crianças terão risco de ficar acima do peso quando estiverem mais velhas. (...) A faixa de IMC normal pode ficar mais alta para as meninas conforme elas vão amadurecendo, já que as adolescentes normalmente têm mais gordura corporal do que os adolescentes. Um garoto e uma garota da mesma idade podem ter o mesmo IMC, mas a garota pode estar no peso normal enquanto o garoto pode estar correndo risco de ficar acima do peso. Os médicos dizem ser mais importante acompanhar o IMC das crianças ao longo do tempo do que olhar um número individual, pois elas podem passar por estirões de crescimento. (WIKIPEDIA, 2011)

Respeitando as recomendações acima foi realizada a análise e cálculos para medir o IMC – Índice de Massa Corporal. A turma selecionada para a pesquisa é bem peculiar quanto a idade possui alunos dos 11 anos até os 15 anos, ou seja, uns estão na infância e outros já na adolescência.

O gráfico mostra dados preocupantes, pois a maioria desta turma esta classificada como abaixo do índice considerado como normal de massa corporal, deve ser um destes fatores que faz com que a turma tenha alunos com idades avançadas para a série. Sem uma boa alimentação o déficit de atenção aumenta e a aprendizagem passa a ser prejudicada. Sawaya (2006, p.[s.p.]) faz uma análise desta situação, “[...] que o baixo rendimento escolar de grande parcela dos alunos no Brasil teria como uma das suas explicações principais a desnutrição atual ou pregressa, o que supostamente levaria a deficiências cognitivas e lingüísticas, prejudicando a aprendizagem”.

Manter uma alimentação equilibrada e que traga benefícios para a saúde de cada indivíduo é um fato certo e notório; entretanto, o que se analisa diante do questionário aplicado aos estudantes do sexto ano de uma escola pública estadual, é que a grande maioria todos sabe o que é preciso para se ter uma alimentação rica em nutrientes.

Mas analisando os resultados dos Índices de Massa Corporal (IMC) constata-se que apesar de saber o que é bom para o organismo humano, no que tange alimentação, a maioria dos pesquisados estão desnutridos, devido provavelmente a má alimentação. Assim, mais do que obvio a desnutrição é um problema sócio-econômico. Os indivíduos sabem que uma boa alimentação é importante para a o desenvolvimento físico e mental; porém as condições financeiras individuais é um fator determinante para a obtenção destes alimentos.

A desnutrição fragiliza o físico e o processo de aprendizagem das crianças, elas demonstram um retardo no crescimento e dificuldades para a assimilar o que lhes é ensinado; o que muitas vezes é vista, de maneira errônea, pelos professores como falta de vontade em aprender. A desnutrição infantil afeta de maneira real o crescimento físico e o rendimento escolar, prejudicando o desenvolvimento psicomotor e cognitivo do infante. A desnutrição é um caso de saúde pública.


5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os alimentos são importantes fontes de nutrientes para o organismo humano. Tais nutrientes são essenciais para o bom funcionamento das atividades físicas e cognitivas dos indivíduos. A falta de uma alimentação equilibrada prejudica o processo de funcionamento das atividades humanas tanto as físicas como as cognitivas.

Um indivíduo que tenha uma nutrição deficiente terá problemas de saúde e de atenção; a falta de nutrientes afeta todo o organismo. A desnutrição é considerada pelos pesquisadores como um problema de saúde pública, afeta os países subdesenvolvidos. O problema é considerado de cunho social e econômico; atinge principalmente as classes sociais mais baixas, com salários reduzidos e um maior número de dependentes, torna-se impossível ter uma alimentação nutritiva e equilibrada.

A desnutrição infantil acarreta em deficiência no desenvolvimento psicomotor e cognitivo; há um retardo no crescimento físico e dificuldades na aprendizagem escolar. Pode-se afirmar que a desnutrição é um dos mais graves problemas sociais do Brasil; e, é também um dos grandes responsáveis pelo baixo rendimento escolar. A falta de vontade de estudar ou o déficit de atenção ou de participação em sala de aula pode estar aliada falta de condições financeiras, até mesmo para propiciar uma alimentação que satisfaça a necessidade infantil.

Uma criança desnutrida não tem motivação para aprender; falta nutrientes para o desenvolvimento físico e para compreender o que os professores ensinam. Para erradicar a desnutrição dos bancos escolares é mister que o governo assuma o seu papel de promover a inclusão social no País, não com “esmolas governamentais”, mas com conscientização dos deveres e direitos de saúde, de educação, de crescimento e desenvolvimento humano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. O Dicionário de Língua Portuguesa. Curitiba: Editora Positivo, 2008.

GALLAHUE, David L.; OZMUN, John C. Compreendendo o Desenvolvimento Motor. 3. ed. São Paulo: Phorte, 2005.

GUEDES, D. P, GUEDES, J.E.P.P. Implementação de programas de educação escolares direcionadas a promoção da saúde. Revista Brasileira Saúde Escolar, v. 3, nº 1-4, Londrinas, 1994

KAMEL, Dilson; KAMEL, José Guilherme Nogueira. Nutrição e atividade física. 2. ed. Rio de Janeiro: Sprint, 1998.

MCARDLE, William D.; KATCH, Frank I.; KATCH, Victor L. Fisiologia do Exercício. Energia, Nutrição e Desempenho Humano. 5. ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan S.A., 2003.

MCARDLE, William D, KATCH Victor L Nutrição para o Desporto e o Exercício. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001.

MONTEIRO, Bárbara et al. A desnutrição infantil energético-protéica e suas implicações no processo de memória e aprendizagem motora. 2009 Disponível em http://www.desnutricao.org.br. Acesso em 12 de Agosto de 2010.

NEGRINE, Airton. O Ensino da Educação Física. Rio Grande do Sul: Globo, 1983.

NÓBREGA, Fernando José de. Desnutrição intra-uterina e pós-natal. São Paulo: Panamed, 1986.

PICOLLI, Ana Paula. Hora da Ginástica. 2009 Disponível em www.saudelazer.com/index.php?option=com_content&task=view&id=677&Itemid=49. Acessado em 12/04/2011.

POWERS, Scott K.; HOWLEY, Edward T. Fisiologia do Exercício.Teoria e Aplicação ao Condicionamento e ao Desempenho. 3. ed. São Paulo: Editora Manole Ltda, 2000

SAWAYA, Sandra Maria. Desnutrição e baixo rendimento escolar: contribuições críticas. 2006. Disponível em: www.scielo.br. Acessado em 15/05/2011.

WIKIPEDIA. Enciclopédia Virtual. 2011. Disponível em www.wikipedia.org. Acessado em 07/05/2011.

WILMORE, Jack H.; COSTILL, David L. Fisiologia do Esporte e do Exercício. São Paulo: Editora Manole Ltda, 2001.

Disponível em: www.emedix.uol.com.br. Aceso em: 07.05.2


[1] Graduação em Licenciatura em Educação Física pela Universidade de Caxias do Sul. Acadêmica do Curso de Pós-Graduação em Educação Física pela Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí – PR.


Nenhum comentário:

Postar um comentário